sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Fogo em nossa casa

Fogo em nossa casa

            Morávamos na Rua Melvin Jones, número 39. O bairro não era nem Capão, nem IPS, nem Parque Aurora, hoje é parque Rosário. O nome da cidade era Campos, hoje é Campos dos Goytacazes. A casa era uma meia água de quarto, sala, cozinha, banheiro, varanda e um quintal com uma árvore na frente.
Mamãe quase não saia de casa. Quando ela ia ao médico, ela chamava vovó que morava ao lado para olhar a gente. A recomendação que ela fazia era que não deixassem as crianças entrarem no quarto dela, porque ela não gostava. Por isso mesmo adorávamos entrar escondidos e mexer nas coisas dela. Curiosidade pura de criança...
Certa tarde, numa dessas ocasiões, eu e Sandra estávamos com a professora particular, D. Nelly, os meninos brincavam e vovó estava fazendo algo na cozinha. Ouvimos Dudu gritar “Fumaça, fogo saindo pela janela”. Corremos para ver! E era verdade!
Lembro-me de “seu Zemério” empurrando a janela, e o fogo se alastrando ao receber mais oxigênio vindo da janela. Lembro do Corpo de Bombeiros, muitos vizinhos e curiosos em frente da casa, a casa alagada, papéis queimados boiando no chão, “cheiro de tudo queimado”. Mamãe e papai apavorados e nervosos chegando em casa. Perdemos tudo: documentos, dinheiro, roupas, móveis, eletrônicos, brinquedos, colchão, travesseiro, bonecas, cobertas, toalhas, tudo perdido.
Os técnicos do corpo de bombeiro disseram que foi um curto-circuito. Essa justificativa se repetia em cada resposta de curiosos que vinham perguntar: Como aconteceu? Mamãe tinha outra versão: ela acreditava que a culpa era de papai que fumava demais e esqueceu o cigarro aceso sobre o guarda-roupa, enquanto se vestia.
Depois disso, veio a reforma: pinturas, sinteco, alguma coisa ganhamos, outra compramos, outra reformamos... 
O tempo passou...
Depois de mais de 30 anos, num encontro entre Dudu, Jr., Leon, papai e eu, falamos de lembranças do passado e assim fiquei sabendo do motivo e a causa do incêndio daquela época. Réu confesso, ali na minha frente. Fiquei abismada de um segredo escondido por tanto tempo. Um segredo de família foi revelado naquele momento, em março de 2006:
O fogo aconteceu a partir de um fósforo aceso dentro do guarda-roupa para iluminar , riscado por Júnior que brincava de esconde-esconde com Flávio. Vovó ao vê-lo entrando no quarto, tira-o do guarda-roupa pelo braço e não percebeu na outra mão o fósforo aceso ficara caído. Fecha-se o guarda-roupa e fecha-se o quarto com chave, como era de costume.
Papai sempre protegeu os meninos de tudo. Acredito que ainda hoje ele faça o mesmo. Carregou a culpa sem se defender, tudo em nome do amor ao filho.

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