quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Pesando as lembranças

Pesando as lembranças

            Ninguém gosta de esperar, principalmente em fila, daquelas intermináveis... Eu ali, na fila do Correio com minhas correspondências nas mãos, aguardando a vez. De repente percebi que algo me transmitia sensações, lembranças que me transportavam ao passado.
            Era década de 70, Correio de Campos do Goytacazes, situado na Praça São Salvador: Logo na entrada havia alguns degraus; as portas eram de grades de ferro, grandes, altas e largas. Posso me lembrar perfeitamente das colunas altas, em fileiras, costumávamos nos esconder atrás delas; fazia eco, o espaço era bem amplo e um tanto quanto escuro; havia muitos guichês, cada qual para um serviço diferente. Havia também algumas mesas altas com banquinhos de rodar, tipo lanchonete, cada mesa tinha uma divisória no meio, dividindo em dois lados, cada lado permitia o uso de três ou quatro pessoas; havia outras mesas com rolos de cola para a colagem que sempre lambuzavam os meus dedos, sem falar no cheiro fedido. Naquele tempo, existia o envelope de goma, era só passar a saliva com a ponta da língua. Rodávamos pelas colunas, corríamos pelas escadas e havia sempre um que ficava para trás.
            O Correio de Campos funcionava aos domingos até 12h. Depois de vovô postar algumas correspondências, íamos à Confeitaria Francesa tomar sorvete, passávamos pela banca de jornais pegar o JB e gibis. Em alguns domingos passávamos também no Mercado Municipal, era muito bom!
            Não poderia deixar de falar das missas de 10h, rezada em latim na Catedral, a Basílica de São Salvador, onde se usava lenço para comunhão, as mulheres só podiam entrar trajadas de saia. Calça? Nem pensar!
Ficava olhando o tempo todo para cima, ficava observando os desenhos da abóboda: era alta, redonda, clara, parecia um pedacinho do céu: Que lindo! Queria chegar mais perto, tocar... Ficava imaginando como foi construída, quem pintou...
Somos capazes de gravar tantas coisas em nossa mente, coisas que nem lembrávamos que um dia existiu, tudo por culpa de uma balança de pesagem tal qual como aquela do “correio de minha infância”. Daqui a pouco tempo, será substituída pela digital.   Que pena... Tudo isso passa, a vida passa, as coisas passam e o tempo passa tão rápido ,que já é a minha vez na fila, e nem lembrava mais da fila... Hora de ir embora...
A fila que também existiu e agora não existe mais. Só saudades.
                                                                                                                                                                                              ano: Uma homenagem postuma ao professor Jose' Moreira Machado, meu vô querido.
Ano: 2004  

Um comentário:

  1. É, Gigi, muitas lembranças. Eu acredito que o melhor é encontrar alguém que possa partilhá-las conosco. Eu me lembro do prédio, da balança, dos vidros de cola, ... da missa em latim, não me lembro tanto assim, mas da proibição de entrar de calça me lembro bem pois minha prima foi barrada uma vez.
    Beijo para você, Marise.

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