sábado, 26 de novembro de 2011

Tio Flor

Tio Flor


Bem, vovó era filha de português com índia. Era de cor clara e cabelos negros(quando era nova), lembro dela com os cabelos grisalhos e falhados. Ela contava que seus cabelos eram lindos. Quando surgiu a moda do cabelo permanente, cismou de fazer e usou uma química que na qual estragou seus cabelos a deixando quase careca.
Vovó tinha muitos irmãos: Lembro da tia Lora, Tia Otília casada com tio Antônio, tio Amadeu, Tio Domingo, tio Zidoro casado com Teresa e tio Flor. Das cunhadas havia a tia Caçula, irmã de Nelson e um sobrinho chamado Ninício, muito esquisito por sinal, algumas vezes engraçado. Sempre apareciam lá em casa de vez em quando. Vovó morava ao lado de nossa casa. Em outra época, morou no Centro, acho que foi quando tia Nilsa se casou...
Estas visitas deixavam mamãe saudosa de sua infância, contava as lembranças, quando passava as férias lá e andava muito a cavalo; que tinha primos também de olhos azuis, da liberdade de catar frutas... 
Devia ter meus 10 anos, fase em que toda criança observa muitas coisas...
Quando tio Flor chegava lá em casa, era uma grande festa como qualquer outra visita. Éramos cinco, não tínhamos opção de lazer e as visitas eram sempre bem-vindas!
Tio Flor era baixo, olhos azuis, bochechas e nariz avermelhados. A testa era bem branquinha, dava para ver quando ele sentava com parte do bumbum, coluna reta, de pernas abertas, tirava o chapéu e ficava se abanando. O cheiro era de roça, por todos os poros, ele trazia o cheiro da roça com ele, suor de homem trabalhador.
Trazia com ele uma cesta e coisas maravilhosas dentro dela. Como era bom! Ficava ansiosa para ele mostrar o que havia dentro da cesta. Sempre nos oferecia ovos, maracujá, abacaxi, caju, aipim, castanha de caju, coquinho...
Nossa mãe mais que depressa, fazia para ele um suco de abacaxi e lhe servia em copo duplo com algumas pedras de gelo. Ele gostava de brincar de afundar o gelo com a ponta do dedo como se o gelo pudesse de fato afundar. Seus dedos mostravam as unhas e cutículas escuras por conta de trabalhar com a terra.
Dava notícias dos parentes, contava histórias de quem fez o que e quando, falava dos doentes e os tratamentos, estas coisas... Depois se despedia dizendo algo que nunca mais esqueci, era algo mais ou menos assim:
“_Deus que te abençoe, te dê saúde, paz e um bom casamento”.   
E ia embora.
Um homem da roça, acredito que nenhum estudo, e de grande sabedoria, porque -um bom casamento- faz uma enorme diferença na vida de uma pessoa. E como!!!

Memória

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