sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Uma aventura perigosa


            Aconteceu possivelmente no ano de 1985.
            Nossa mãe havia se separado e mudado de cidade, fomos morar em Macaé, na Avenida Papa João XXIII, numa vila. Tudo novo: casa, vizinhos, amigos, passeios, praia, barzinhos, tudo. Vida nova.
            Nesta época, minha irmã mais velha conhece um rapaz, sargento do exército, e inicia um namoro em casa com permissão de mamãe. Ele era simpático, inteligente, agradável, seu nome era Carlos Alberto, se não me falha a memória. Chamava nossa mãe de “Neusinha Maravilhosa”. Quando ia lá pra casa, namorar a Sandra envolvia todos da casa e alguns amigos: Jogávamos baralho, dominó, rolava até uns drinks, controlado... Em algumas vezes para eles saírem, só era permitido “se levasse a sua irmã junto”... Sem saber, eu já era empata-foda.
            Bem, surgiu na ocasião uma festa em Conceição de Macabu, um churrasco de conhecidos do sargento, diga-se de passagem, que o sargento era do sul e ele já sabia que teria de “levar a irmã junto”...
            Ele pede permissão, fica tudo combinado: antes de meia-noite em casa.
Era um dia de sábado, pegou-nos às oito da noite. De quebra, ele leva também um amigo forte, parrudo de quase dois metros, para me fazer companhia, por mim tudo bem, naquele dia eu não estaria segurando vela para o casal. Que alívio...
Na ida, passamos no supermercado e compramos algumas cervejas, já fomos calibrando. Lá, bebemos ainda mais. Gente estranha, esquisita, principalmente o amigo parrudo que não lembro o nome, porque não tínhamos intimidades, sabe?
Na volta: extrapolando o horário de retorno, era mais de uma hora da madrugada, o sargento em uma curva fechada, resolve frear o veículo, não entendo até hoje o motivo da freada, capotamos muitas vezes, possivelmente umas cinco voltas. A cada volta que dávamos, eu esperava “a hora da passagem” como nossa mãe dizia. Senti-me um caroço de feijão dentro de uma caixa de fósforo, trocamos de lugares, foi muito estranho. O carro era um chevette. Quando parou, arrumamos um jeito de sair logo pela janela, com as rodas ainda em movimento forte. Verificamos que um barranco havia segurado o carro. A primeira coisa que faço é localizar uma minha irmã que estava desacordada. Grito o seu nome desesperadamente, achando que o pior havia acontecido. Vimos à cara da morte! Foi horrível...
Depois de verificar que estava tudo bem, pedimos ajuda uma kombi que passava na hora levando um grupo de jogadores de futebol, que jogaram não sei onde, uma partida. Eles desviraram o carro, porém sem muito sucesso porque a mecânica do carro estava travada, deve ter sido a suspensão...
Ficamos ali, no meio do nada, o escuro, estradinha de chão, esperando algo que não sabia o que era. Naquela época não existia celular, nem bip!
Passou depois de algum tempo um jipee de um fazendeiro da região (nunca tinha andado de jipee, achei ótimo), que nos deu carona de volta à Conceição, de lá telefonamos para casa avisando o ocorrido, pegamos um táxi de volta para Macaé aonde chegamos sã e salvas por força do destino, sorte ou “cagada” mesmo...
“Se beber não dirija, se dirigir não beba.”

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

No dia em que DINHEIRO caiu do ceu

     Trabalhava numa empresa chamada Comauto, era uma concessionária de veículos VW, minha função era auxiliar de escritório e foi meu primeiro emprego de carteira assinada, uma data inesquecível: 1º de abril de 1987. Comauto ficava bem distante, próximo ao Cemitério do Caju, era do outro lado da cidade. Eu morava no Jockey Club e acordava às 6h, tomava o ônibus CEAB às 7h, descia antes de subir na ponte, na Av. 15 de novembro, caminhava um pouco e chegava ao trabalho às 8h, eram 7km de distância. Na hora da volta pegava dois ônibus ou ia pé até o Centro da cidade e lá pegava o Jockey, não havia nesta linha CEAB de retorno.
     Certa vez, estava sem dinheiro nenhum. Tinha um trocado na bolsa somente para a passagem de ida, naquele tempo não existia o vale transporte, já que era dia de pagamento contava em receber e voltar para casa tranqüilamente, só que neste dia não saiu o pagamento... Diga-se de passagem que naquela época passávamos pela recessão: tudo era caro, inflação, a vida era muito difícil.
     Costumava levar marmita. Mamãe fazia a comida pela manhã e muitas vezes nem sabia o que era o almoço. Muitas vezes tinha vergonha de comer perto de alguém, lá no escritório porque às vezes vinha ovo frito, espinafre com angu. Uma vez ou outra vinha um bife acebolado ou um frango ensopado. A comida era sempre muito saborosa e o cheiro sempre aguçava o olfato de alguns colegas, independente de ser uma comida mais elaborada ou não. Neste dia, não levei marmita, a dispensa estava pura, comprei fiado uma esfirra de carne na lanchonete próxima ao trabalho.
     Depois do almoço fiquei pensando: “Como vou voltar para casa? Que desagradável, terei de pedir dinheiro emprestado... Que vergonha...” Mas não teve outro jeito, tive que me encher de coragem, explicar a situação para um colega mais próximo e então peguei emprestado o valor que seria para duas passagens: a de voltar para casa e a de vinda do dia seguinte.
     Fui caminhando pela Av 15, muito movimento, cansada, com fome, sem energia para caminhada de vinte minutos, mas seguindo em frente. Me lembro bem: ventava naquele fim de expediente, sentia meus cabelos bagunçados. Estava torcendo para que o pagamento saísse no dia seguinte, para não ter que passar por constrangimento como o de hoje.
     Quando menos esperava: vi caído na calçada um bolo de notas! O vento desmanchava o bolo! Olhei para os lados, não havia ninguém por perto! Não sabia qual iria pegar primeiro! Foi maravilhoso! Dinheiro caiu do céu pra mim, naquela hora! Obrigada meu Deus!!! Catei o que pude, feliz da vida, passei na padaria levei lanche para casa e ainda sobrou mais algum.
     Uma das sensações mais maravilhosas: Achar dinheiro!
     Tenho certeza de que foi Deus que mandou pra mim!


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Fogo em nossa casa

Fogo em nossa casa

            Morávamos na Rua Melvin Jones, número 39. O bairro não era nem Capão, nem IPS, nem Parque Aurora, hoje é parque Rosário. O nome da cidade era Campos, hoje é Campos dos Goytacazes. A casa era uma meia água de quarto, sala, cozinha, banheiro, varanda e um quintal com uma árvore na frente.
Mamãe quase não saia de casa. Quando ela ia ao médico, ela chamava vovó que morava ao lado para olhar a gente. A recomendação que ela fazia era que não deixassem as crianças entrarem no quarto dela, porque ela não gostava. Por isso mesmo adorávamos entrar escondidos e mexer nas coisas dela. Curiosidade pura de criança...
Certa tarde, numa dessas ocasiões, eu e Sandra estávamos com a professora particular, D. Nelly, os meninos brincavam e vovó estava fazendo algo na cozinha. Ouvimos Dudu gritar “Fumaça, fogo saindo pela janela”. Corremos para ver! E era verdade!
Lembro-me de “seu Zemério” empurrando a janela, e o fogo se alastrando ao receber mais oxigênio vindo da janela. Lembro do Corpo de Bombeiros, muitos vizinhos e curiosos em frente da casa, a casa alagada, papéis queimados boiando no chão, “cheiro de tudo queimado”. Mamãe e papai apavorados e nervosos chegando em casa. Perdemos tudo: documentos, dinheiro, roupas, móveis, eletrônicos, brinquedos, colchão, travesseiro, bonecas, cobertas, toalhas, tudo perdido.
Os técnicos do corpo de bombeiro disseram que foi um curto-circuito. Essa justificativa se repetia em cada resposta de curiosos que vinham perguntar: Como aconteceu? Mamãe tinha outra versão: ela acreditava que a culpa era de papai que fumava demais e esqueceu o cigarro aceso sobre o guarda-roupa, enquanto se vestia.
Depois disso, veio a reforma: pinturas, sinteco, alguma coisa ganhamos, outra compramos, outra reformamos... 
O tempo passou...
Depois de mais de 30 anos, num encontro entre Dudu, Jr., Leon, papai e eu, falamos de lembranças do passado e assim fiquei sabendo do motivo e a causa do incêndio daquela época. Réu confesso, ali na minha frente. Fiquei abismada de um segredo escondido por tanto tempo. Um segredo de família foi revelado naquele momento, em março de 2006:
O fogo aconteceu a partir de um fósforo aceso dentro do guarda-roupa para iluminar , riscado por Júnior que brincava de esconde-esconde com Flávio. Vovó ao vê-lo entrando no quarto, tira-o do guarda-roupa pelo braço e não percebeu na outra mão o fósforo aceso ficara caído. Fecha-se o guarda-roupa e fecha-se o quarto com chave, como era de costume.
Papai sempre protegeu os meninos de tudo. Acredito que ainda hoje ele faça o mesmo. Carregou a culpa sem se defender, tudo em nome do amor ao filho.

sábado, 26 de novembro de 2011

Tio Flor

Tio Flor


Bem, vovó era filha de português com índia. Era de cor clara e cabelos negros(quando era nova), lembro dela com os cabelos grisalhos e falhados. Ela contava que seus cabelos eram lindos. Quando surgiu a moda do cabelo permanente, cismou de fazer e usou uma química que na qual estragou seus cabelos a deixando quase careca.
Vovó tinha muitos irmãos: Lembro da tia Lora, Tia Otília casada com tio Antônio, tio Amadeu, Tio Domingo, tio Zidoro casado com Teresa e tio Flor. Das cunhadas havia a tia Caçula, irmã de Nelson e um sobrinho chamado Ninício, muito esquisito por sinal, algumas vezes engraçado. Sempre apareciam lá em casa de vez em quando. Vovó morava ao lado de nossa casa. Em outra época, morou no Centro, acho que foi quando tia Nilsa se casou...
Estas visitas deixavam mamãe saudosa de sua infância, contava as lembranças, quando passava as férias lá e andava muito a cavalo; que tinha primos também de olhos azuis, da liberdade de catar frutas... 
Devia ter meus 10 anos, fase em que toda criança observa muitas coisas...
Quando tio Flor chegava lá em casa, era uma grande festa como qualquer outra visita. Éramos cinco, não tínhamos opção de lazer e as visitas eram sempre bem-vindas!
Tio Flor era baixo, olhos azuis, bochechas e nariz avermelhados. A testa era bem branquinha, dava para ver quando ele sentava com parte do bumbum, coluna reta, de pernas abertas, tirava o chapéu e ficava se abanando. O cheiro era de roça, por todos os poros, ele trazia o cheiro da roça com ele, suor de homem trabalhador.
Trazia com ele uma cesta e coisas maravilhosas dentro dela. Como era bom! Ficava ansiosa para ele mostrar o que havia dentro da cesta. Sempre nos oferecia ovos, maracujá, abacaxi, caju, aipim, castanha de caju, coquinho...
Nossa mãe mais que depressa, fazia para ele um suco de abacaxi e lhe servia em copo duplo com algumas pedras de gelo. Ele gostava de brincar de afundar o gelo com a ponta do dedo como se o gelo pudesse de fato afundar. Seus dedos mostravam as unhas e cutículas escuras por conta de trabalhar com a terra.
Dava notícias dos parentes, contava histórias de quem fez o que e quando, falava dos doentes e os tratamentos, estas coisas... Depois se despedia dizendo algo que nunca mais esqueci, era algo mais ou menos assim:
“_Deus que te abençoe, te dê saúde, paz e um bom casamento”.   
E ia embora.
Um homem da roça, acredito que nenhum estudo, e de grande sabedoria, porque -um bom casamento- faz uma enorme diferença na vida de uma pessoa. E como!!!

Memória

Lembranças da escola


Estudei em uma escola pública durante oito anos, assim como também os meus irmãos, ela se chama E. E. Dr Silvio Bastos Tavares, não me pergunte quem foi, porque não sei e nunca me interessei em saber.
A primeira instalação da escola era chamada “grupo velho”, depois que uma nova começou a ser construída. O grupo velho era chamado grupo escolar, era um casarão bem antigo, escuro, deveria ter umas seis ou oito salas. Tinha uma escadaria e logo em frente um corredor onde eram distribuídas as salas. As portas eram altas, de duas bandas e com trinco, as mesas eram agarradas ao banco, de madeira, com capacidade para dois estudantes, mas às vezes sentavam três, havia uma canaleta para acomodar o lápis. Na frente da escola havia uma árvore de tamarindo, uma tamarineira frondosa. Ficávamos esperando o sinal e catando no chão a fruta azeda para distrair a boca. Gostava de sentar em suas raízes e aproveitar a sombra.  O sol em Campos é mais quente e mais ardido. A escola não tinha muro, era um grande pátio de chão que quando chovia era um horror.
Levávamos a pé, uns 15min para chegar à escola.  Lembro-me bem de nós três: eu, Jr. e Flávio caminhando pela rua Dr. Beda em direção à escola, apertando as campainhas e provocando a cachorrada. A Sandra ia na frente com as amigas, ela não gostava se andar com a gente.
Certa vez, já arrumados para irmos embora, enquanto a professora fazia a chamada, tirei a pulseira do braço e fiquei brincando de trenzinho, por esse motivo fiquei de castigo, fui a última a sair da escola. Meus irmãos ficaram me esperando para irmos embora, fiquei com vergonha, muita vergonha e ao mesmo tempo muito ódio da professora, depois passou.
Estudei no Grupo Escolar da 1ª. a 4ª. Série, de 1974 a 1977.
As instalações novas com cheiro de novo: um prédio de três andares, uma escadaria, corredores amplos, laboratório, sala de música com piano, biblioteca, janelas amplas de vidro de ferro que com tempo foram substituídas por grades de arame, 10 salas por andar, banheiro feminino e masculino nos dois andares. Lembro da parede: cinza, com textura e pigmentos vermelho. Através da janela dava pra ver minha casa, para isso tínhamos de subir na carteira. Na inauguração da escola foi distribuído refrigerante fanta, coca e guaraná em garrafa pequena de vidro e cachorro quente, foi muito legal.
O portão da escola era de ferro, pintado de preto e ficava bem em frente ao portão da minha casa numa distância de treze passos de gente jovem, brotinho, era uma vantagem. Minha mãe sofria com as reclamações dos gêmeos, todo dia alguém da escola no nosso portão, uma desvantagem.
Soava um sinal de 14h50min para entrada dos alunos (era o horário que entrava para o banho) e às 15h para fechar o portão (era o horário que entrava), os retardatários se apressavam o passo e conseguiam entrar. De atrasados não se passavam de 10 alunos. Lá de casa dava pra ouvir o sinal da escola e os berros de uma professora chamada D. Amatilde, uma megera. Se morreu? Provavelmente de calo nas cordas vocais ou de chatice...
Os alunos tinham disciplina, respeito e orgulho de seus professores. Amãvamos a bandeira nacional e sabiamos cantar o hino.Tínhamos uma relação profissional, conversávamos sobre as dúvidas, possibilidades dentro do conteúdo onde existia interesse e disputa, nada de assuntos pessoais nem emocionais, mas mesmo assim amávamos nossos professores: D. Sueli Madalena de História, D. Celeste de Ciências, D. Célia, a diretora...
Quando batia o sinal do recreio, corríamos rápido pelas escadarias em direção à fila da merenda. Todos merendávamos com gosto. Serviam leite de soja com biscoito, carne de soja com arroz, feijão, farofa, carne seca com abóbora, macarrão com salsicha, sopa, e de sobremesa, paçoca, doce de abóbora, doce de batata doce, biscoito com doce.
Estudei lá de 1978 a 1981, da 5ª. A 8ª. série.
Muitos alunos passavam para Escola Técnica Federal de Campos, era um orgulho para a escola. A diretora se chamava D. Célia Martins Peixoto. Uma vez a vi na televisão, numa reportagem. Fiquei com saudades. Já faz tempo...
Era uma boa escola...

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Pesando as lembranças

Pesando as lembranças

            Ninguém gosta de esperar, principalmente em fila, daquelas intermináveis... Eu ali, na fila do Correio com minhas correspondências nas mãos, aguardando a vez. De repente percebi que algo me transmitia sensações, lembranças que me transportavam ao passado.
            Era década de 70, Correio de Campos do Goytacazes, situado na Praça São Salvador: Logo na entrada havia alguns degraus; as portas eram de grades de ferro, grandes, altas e largas. Posso me lembrar perfeitamente das colunas altas, em fileiras, costumávamos nos esconder atrás delas; fazia eco, o espaço era bem amplo e um tanto quanto escuro; havia muitos guichês, cada qual para um serviço diferente. Havia também algumas mesas altas com banquinhos de rodar, tipo lanchonete, cada mesa tinha uma divisória no meio, dividindo em dois lados, cada lado permitia o uso de três ou quatro pessoas; havia outras mesas com rolos de cola para a colagem que sempre lambuzavam os meus dedos, sem falar no cheiro fedido. Naquele tempo, existia o envelope de goma, era só passar a saliva com a ponta da língua. Rodávamos pelas colunas, corríamos pelas escadas e havia sempre um que ficava para trás.
            O Correio de Campos funcionava aos domingos até 12h. Depois de vovô postar algumas correspondências, íamos à Confeitaria Francesa tomar sorvete, passávamos pela banca de jornais pegar o JB e gibis. Em alguns domingos passávamos também no Mercado Municipal, era muito bom!
            Não poderia deixar de falar das missas de 10h, rezada em latim na Catedral, a Basílica de São Salvador, onde se usava lenço para comunhão, as mulheres só podiam entrar trajadas de saia. Calça? Nem pensar!
Ficava olhando o tempo todo para cima, ficava observando os desenhos da abóboda: era alta, redonda, clara, parecia um pedacinho do céu: Que lindo! Queria chegar mais perto, tocar... Ficava imaginando como foi construída, quem pintou...
Somos capazes de gravar tantas coisas em nossa mente, coisas que nem lembrávamos que um dia existiu, tudo por culpa de uma balança de pesagem tal qual como aquela do “correio de minha infância”. Daqui a pouco tempo, será substituída pela digital.   Que pena... Tudo isso passa, a vida passa, as coisas passam e o tempo passa tão rápido ,que já é a minha vez na fila, e nem lembrava mais da fila... Hora de ir embora...
A fila que também existiu e agora não existe mais. Só saudades.
                                                                                                                                                                                              ano: Uma homenagem postuma ao professor Jose' Moreira Machado, meu vô querido.
Ano: 2004  

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Aventuras de um TOSHIBA voador


Aventuras de um Toshiba voador        

         Era uma tarde de segunda-feira, como sempre estava entretida com o trabalho, fazendo colagem numa caixa. Recebia meu irmão Leon e minha cunhada. Oliva usava o note book na janela, porque o sinal do mini moden é melhor, ela estava impaciente e irritada porque não conseguia sinal, a página caia toda hora, não conseguia abrir uma conta no orkut... Essas coisas. Percebi o drama, mas não há nada a fazer nessas horas, uma dica e fechar o móbile partner e conectar de novo, dependendo do sinal pode voltar melhor. Alertei a sobre puxar um pouco o NB pra frente, porque vi quando quase desequilibrou. Continuei meu trabalho a fim de terminar logo, fazer a janta e arrumar a casa.
         Quando menos esperava, aconteceu, ele voou livremente pelo ar...
Só vi “um nada” na janela, fios pendurados e a Olívia me dizendo: “Caiu, mas não foi de propósito...” Eu tinha certeza disso.
Senti uma facada no peito. CARAMBA! Não posso acreditar... Olhei pela janela, vi caído no chão, esparramado, foi uma queda de quatro metros com a força da gravidade e o peso médio de 2,500kg, não poderia desejar milagres... Corri para buscá-lo, segurei nos braços como um bicho de estimação acidentado, não contive as lágrimas.  Foi uma pancada forte... A bateria foi cuspida. A tampa sem encaixe de um lado, mas com o display inteiro. O mini moden envergado na base e uma quina com uma cicatriz.
Meu fiel parceiro: textos, aulas, provas, projetos, cursos, pesquisas, fotos, vídeos, músicas, contatos, pastas e arquivos tudo misturado.
E agora Jose’? O que fazer? Fiquei sem cabeça pra pensar...  Transtornada...
Fiquei com medo de ligar, poderia dar um curto, não sabia como estava por dentro.
Na terça, levei-o na assistência médica, digo técnica em Cabo Frio, ainda pensando durante o trajeto, nos possíveis danos, preocupada, quanto iria gastar para recuperar alguma peça, quanto tempo iria ficar fora do meu mundo cibernético... Já tenho um positivo la’ com a placa mãe queimada, agora outro? Poxa... Que situação...
Pedi pra falar com o técnico Orlando. Ele desparafusou e verificou os componentes, memória, placa, a base de titânio quebrada, entre outros. Parecia um centro cirúrgico: todo despencado, na carcaça.
Depois de recomposto, hora de ligar...
Inacreditável! Sobreviveu!
Que alivio.
Ele me disse: Você teve sorte!
Pensei comigo: E que SORTE...

sábado, 15 de outubro de 2011

Viver a vida... em Buzios

Viver a Vida... Em Búzios

         Muitos pensam que aqui é só diversão e lazer, por estarmos num “paraíso de belezas naturais”. Mas não é bem assim... As pessoas trabalham, estudam, possuem afazeres, compromissos, contas a pagar. A cidade possui vida própria.
Brigitte passou por aqui, trouxe com ela gente famosa, marcou sua presença e marcou a tranqüila Aldeia de Pescadores, a transformando no sétimo destino mais visitado.
A alta temporada é animada, cheia de vida, principalmente quando entra outubro de transatlânticos e o Festival Gastronômico que nos dá água na boca.  Gera uma ansiedade indicando que as férias estão chegando!
A comunidade arregaça as mangas, se envolve com o movimento e faz o seu ganha pão. As festas de fim de ano nos trazem a sensação de que já estamos de férias...
Durante o dia, restaurantes exalam sua gastronomia, loja com seus objetos de desejo, escunas com passeios deslumbrantes pelo verde mar de nossa península, praias, mergulho na Ilha Feia, caminhada pela Orla... Visita ao morro de Sant’Anna.  Aqui, “dá praia” em qualquer dia do ano, com sol ou sem sol, o churrasco a bordo é garantido, anchova na brasa, além da cerveja, o bom papo com os amigos, boas risadas, mergulho no mar, o bronze dourado e o pôr do sol no horizonte na hora de ir embora. Aqui, se aprende a comer garoupa com macarrão, mariscada, sardinha na panela de pressão, peixe com banana.
Em novembro, acontece o Cine Festival com telões nas praças, atores e atrizes por todos os lados, cheiro de pipoca pelos ares, porque cinema é a nossa praia.
Reivellon em Geribá ou em qualquer praia, todas são maravilhosas.
Muita gente bonita na balada, na Rua das Pedras, no pequeno shopping, nas boates. Feirinha de artesanato na Praça matriz, ops! Na praça Santos Dumont. Música ao vivo, em vários lugares, dá um toque mágico nas noites buzianas. Cheiros diferentes, as feições, a pele, as roupas, linguagem diferente. Até parece que estamos no exterior. Os atrativos, para nós, são os turistas exóticos, além do ensaio do bloco carnavalesco Vou ali e volta já, lá no Tinho, encontro certo com os conhecidos.
Tudo lota: as ruas, os bancos, as lojas, os restaurantes, as lanchonetes, as farmácias, filas intermináveis, trânsito barulhento, carros engarrafados, gente impaciente, outras com pressa de algo que não sei o que, criança que chora, grupos que interrompem a passagem, casais que brigam, aumento de produção de lixo, consumo alto de luz e água...
Chega o Carnaval, onde é comum o “apagão” no horário de pico, é também o maior de todos os movimentos. As praias superlotam. Os bailes: são na rua, guerra de espuma, guerra entre blocos, fantasias para brincar em meio aos turistas. O Carnaval acaba e o último fôlego de energia também.
Depois, tudo volta como antes, fim de férias: volta às aulas e ao trabalho, escola...
A Orla Bardot fica livre. Você pode se expandir, andar por onde quiser. Ouvir os próprios passos, apreciar mais o cheio do mar, observar o horizonte, ver a direção do vento, deixar a lestada desarrumar os cabelos.
Nessa época, a cidade é nossa. Tudo bem tranqüilo e calmo, como maré seca. Você pode ir a qualquer lugar, folhear uma revista, parar no cais, ver pescadores na areia consertando uma rede, um colando o bote, outro pintando o barco... Ver o vôo vazante de uma gaivota. Tudo volta ao normal.
É assim que se vive a vida em Búzios.
                                                                                              Julho de 2010

In-Feliz Dia do Professor

In-Feliz Dia do Professor

         “Feliz Dia dos Professores” isso é coisa do passado, já não temos mais.
         Houve uma época em que o professor era valorizado não só pelos alunos, mas também pela sociedade e pelos governantes.
         Época boa, não?     Já faz bastante tempo...
         Os tempos mudaram  e muito!
         A política mudou, digo piorou. Hoje, presenciamos nos noticiários fatos absurdos, injustos e abusivos: presidente alterando a constituição para permanecer no cargo; judiciário que anula pena de outro judiciário e o réu em liberdade; favores que vem em troca de outros favores sujos; deputado que se lixa pra opinião pública e ainda diz que vai voltar; famílias desestruturadas, doenças e mortes que geram lucro; bandidos disfarçados por todos os lados, são tantos abusos... Todos em busca do poder, do conforto salarial, das regalias infindas. 
         O sistema está mais corrompido, mais podre e consequentemente, mais impugnante.
         A escola também faz parte do sistema corrompido. Não temos mais lei, nem ordem, nem autoridade pra mais nada ou quase nada.
         Remamos contra a maré todos os dias. Somos violentados, injustiçados, desrespeitados todos os dias, sem voz.
O que é pior, a falta de dignidade ou ser assalariado? Fico me perguntando por que brigar por um salário justo se não temos o principal: a dignidade? Uma reivindicação que perde o sentido.
Alguns colegas são fiéis companheiros, alguns alunos são exemplares, poucos, ainda que seja. Ainda lutamos pela ordem, pela ética, pelo respeito de forma discreta, sem muito reboliços, com flexibilidade e psicologia para a situação não se virar contra você. `As vezes relevamos, outras fazemos vista grossa, porque estamos enfraquecidos, sem acreditar no que acreditávamos, mais realistas que pessimistas.
Vai se levando a vida, conforme o que se pode fazer. Um pouquinho a cada dia, gotejando.
         Minha indignação não vai mudar nada. Já’ cansei de brigar. Quero cuidar do meu lazer, do meu bem estar, viver a vida numa boa apesar dos conflitos que temos de lidar...
         Mesmo assim, ao mestre com carinho:
         Feliz Dia do Professor!


Professora Gil Barros,
15 de outubro de 2009.